NOTÍCIA DO DIA - BMF ajusta foco para expandir mercado

FOLHA - Como foi o "road show" para "vender" o IPO da BM&F?
MANOEL FÉLIX CINTRA NETO - Se pegar todas as viagens feitas, dá três vezes a volta ao mundo. Há um interesse muito grande no Brasil. Todos reconhecem que o Brasil será "investment grade" [com selo de bom pagador] e estão se antecipando a isso.
FOLHA - Qual a maior dúvida?
CINTRA NETO - O Brasil é um país que tem tudo por fazer. Tem potencial de investimento em infra-estrutura, álcool e biodiesel. Temos um mercado com um arcabouço jurídico muito forte. E eles perguntam isso, que é a segurança de investimento. A condução da política econômica pelo governo Lula deu confiança para os investidores. Não tem mais esquerda e direita em termos de fundamentos econômicos.
FOLHA - Se o Brasil é uma realidade, o que falta fazer?
CINTRA NETO - Basta que o governo ofereça segurança para que o capital privado faça o desenvolvimento que se esperava do Estado, que é educação, estrada, porto, saída para o Pacífico. Na questão tributária, a reação do Lula [ao fim da CPMF] foi excelente. Respeitou a democracia e viu o que poderia fazer. É uma oportunidade para apresentar uma proposta de simplificação tributária. Outra questão é a formalização. Os IPOs mostram que vale a pena ser formal. Quando todos pagam impostos, se cria a possibilidade para pagar menos.
FOLHA - Se não existe mais direita e esquerda na economia, então o ministro da Fazenda ainda é importante? Há um esvaziamento?
CINTRA NETO - O governo sempre vai ser importante. Não precisa ser o governo empresário. O governo dá o tom na agenda. É como no futebol. Você vê que o juiz é bom, quando assiste à partida e não percebe que tem juiz. Se o país for bem, você não percebe o governo.
FOLHA - O BNDES e BB perderam a sua importância para as Bolsas como fonte de recursos?
CINTRA NETO - O país não pode ficar só na dependência do BB e do BNDES. Não pode querer que o BB carregue alguma carga especial nas costas. BNDES deve atuar em longo prazo, que os bancos não atendem.
FOLHA - Não é um contra-senso o produto da BM&F ser tão sofisticado e ter atraído 260 mil pequenos investidores no IPO?
CINTRA NETO - Realmente, o grande usuário do sistema de "hedge" [contrato que funciona como um seguro] são as grandes empresas. É uma pena que cada um levou uma quantia menor do que desejava. Claro que muitos entram para realizar lucro em curto prazo. Tomara que realizem, saiam satisfeitos e voltem.
FOLHA - Qual a vocação da BM&F e do país quando os alimentos passam a ter um valor financeiro maior?
CINTRA NETO - Os alimentos passam a ter uma importância maior, os volumes crescem e os valores são outros. A entrada da China como grande consumidora fez a grande diferença nos últimos dez anos tanto na valorização das commodities quanto no barateamento dos produtos industrializados. O produto agrícola tem um campo fantástico de crescimento, principalmente o Brasil, que ainda tem áreas agriculturáveis [extensas]. As perspectivas dos contratos agrícolas de uma maneira geral no mundo todo são grandes, não só na BM&F.
FOLHA - A Bolsa de Chicago tira negócios da soja da BM&F?
CINTRA NETO - É o contrário, a Bolsa de Chicago é centenária. Nós é que estamos aí e com legitimidade, uma vez que o Brasil é um grande produtor.
FOLHA - A BM&F sediou o leilão da Prefeitura de São Paulo de créditos de carbono. O Brasil tem uma vocação natural nesse mercado?
CINTRA NETO - O Brasil deverá ser um grande emissor de créditos de carbono. O desafio é como comercializar. Como é que um dos grande investidores lá de fora vai comprar de alguém que não conhece? A BM&F entra dando credibilidade. O sistema de leilão torna a comercialização segura. E, por ser mais segura, obtém o melhor preço. À medida que cresça, deverá ser criado um mercado para esses certificados. É um instrumento interessante para um futuro contrato.
FOLHA - São Paulo tem vocação como centro de liquidez e pode esvaziar as praças na América Latina?
CINTRA NETO - São Paulo é o mercado mais desenvolvido. À medida que Buenos Aires, Lima e Santiago virem que há um mercado forte na América Latina, a tendência é interagirem com o Brasil. No caso do banco [argentino] Patagonia, que abriu o capital na Bovespa, a tendência seria ir para Nova York. A Bovespa dá o mesmo nível de liquidez e segurança.
CINTRA NETO - [Silêncio]
Marcadores: BMF, Bolsa de Valores

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